sábado, 19 de novembro de 2016

Poesia - Aline Djokic

Da  minha    consciência    ancestral:  

Ontem, sentada frente ao espelho

Ia cuidar dos meus cabelos

Com o creme de alisamento


Abri o pote e o forte cheiro

Adentrou­‐me as narinas tão violento

Fazendo‐me fechar os olhos

Por um momento


Abri­‐os novamente e ela estava lá

Sentada ao pé da cama a me mirar

Pés e mãos acorrentados

A lágrima no rosto a brilhar


De onde vem, sussurrei

Do outro lado do mar

O fedor aqui é tão forte

Já não posso respirar


Ontem, sentada frente ao espelho

Ia cuidar dos meus cabelos

Esperava a chapinha esquentar


Estiquei a primeira mecha

Mas, descuidada queimei a testa

Senti a pele a latejar


Fechei os olhos, contendo a dor e o ódio

E quando os abri, ela já estava lá

Na bochecha uma cicatriz

Quem lhe fez isso? Saber eu quis



Ela levantou‐se e tocou minha queimadura

Depois falou­‐me com ternura:

Agora a qualquer lugar onde eu for

Saberão sempre quem é meu senhor


Ontem sentada frente ao espelho

Resolvi amar os meus cabelos

Sussurrei seu nome com zelo

Esperei ela se sentar


Ela se achegou sem receio

Recostou minha cabeça em seu seio

Começou a pentear


A cada mecha, a cada trança

Uma memória, uma lembrança

Que o medo não pode apagar.


Aline Djokic

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